CARACTERÍSTICAS DO FACILITADOR INTERACCIONAL


Fernando Nogueira Dias


1. O PERFIL DESEJÁVEL

Mais uma vez, vamos basear-nos no pensamento de Rogers (1984b: 55-75) para analisar as características a que deve obedecer o perfil do facilitador em processos de interacção humana.

Contexto filosófico e atitudes. O facilitador deve partir do princípio de que o grupo tem condições para poder desenvolver as suas próprias potencialidades e as dos membros que dele fazem parte. Neste sentido, o grupo pode ser perspectivado como um organismo que tem o sentido da sua própria direcção.

Por outro lado, o grupo tem a aptidão natural para reconhecer no seu processo de funcionamento e de desenvolvimento os factores que não se apresentam como saudáveis, centrar-se neles e filtrá-los ou eliminá-los, possibilitando desta forma que se torne mais saudável.

Ao grupo não deve ser imposto um objectivo específico, dado que este tem competências para desenvolver as suas próprias direcções e fins que mais lhe convêm.

Por sua vez, será conveniente que o facilitador procure, tanto quanto possível, tornar-se tão participante do grupo quanto facilitador.

Por outro lado, o facilitador deve sentir-se responsável para com o grupo, mas não responsável pelo grupo. Este princípio em nada contraria o sentido de responsabilidade que o facilitador deve assumir na relação com os outros.

A criação do ambiente. É função do facilitador disponibilizar-se para acompanhar o grupo, sem no entanto o dirigir. Não é fácil esta posição. De facto, espera-se que o facilitador não dirija o grupo, mas na realidade não se espera dele que se desresponsabilize, sobretudo em situações de crise individual ou colectiva.

Aceitação do grupo. Aceitar o grupo é uma atitude fundamental por parte do facilitador. Com efeito, à semelhança da atitude positiva incondicional, já referida, espera-se que o facilitador aceite o grupo de uma forma empática. Quer dizer, que aceite o grupo a partir do seu próprio ponto de vista ou daquilo que ele próprio deseja para si.

Aceitação do indivíduo. Reportamo-nos agora à aceitação do indivíduo que é participante num grupo. Da parte do facilitador deverá haver disponibilidade e compreensão para aceitar um qualquer participante que pretenda identificar-se ou não com o grupo. Deverá ser deixada ao participante a possibilidade de se comprometer ou não com os processos grupais nos quais está inserido.

Compreensão empática. Diz respeito à tentativa permanente do facilitador em compreender o significado exacto daquilo que o participante expressa ou pretende expressar ao grupo.

Actuar de acordo com o que se sente. Significa que o facilitador deve sentir-se liberto para expressar os seus próprios sentimentos, tal como os sente no momento, quer em relação ao grupo como um todo, quer a um indivíduo ou a si mesmo como facilitador.

Confrontação e feedback. Significa que da parte do facilitador deve haver a capacidade de enfrentar os ataques que lhe são dirigidos sem contra-atacar as defesas dos seus opositores.

Expressão dos próprios problemas do facilitador. Do facilitador espera-se que obtenha um equilíbrio entre a liberdade de expressar os seus próprios problemas e partilhar os seus sentimentos e o respeito pelo papel que tem de desempenhar.

Evitar o artificialismo. Não faz parte do papel do facilitador, no âmbito deste modelo, que ele proponha medidas de actuação artificiais, e muito menos que as imponha ao grupo, a menos que os participantes assim o desejem.

Evitar os comentários interpretativos. Fazer comentários interpretativos aos membros do grupo ou aos processos que nele ocorrem é considerar o grupo como uma massa de indivíduos, sem responsabilidade, e por isso não os respeitar enquanto pessoas. Se houver de fazê-los, que seja um dos participantes do grupo, mas nunca o facilitador.

A potencialidade terapêutica do grupo. O facilitador pode normalmente contar com os membros do grupo para exercerem a função terapêutica. Mas isto não significa que o facilitador não deixe de se envolver como pessoa, sobretudo nos casos mais complicados.

Movimento e contacto físico. O grupo deve sentir da parte do facilitador a liberdade suficiente para poder movimentar-se fisicamente no seu próprio espaço ou para que os participantes se toquem fisicamente, sempre que o acharem necessário.

Tornar-se pessoa. O facilitador deverá procurar tornar-se cada vez mais uma pessoa, ao invés de se manter fechado na armadura do seu papel.
 

2. O QUE O FACILITADOR NÃO DEVE SER (FAZER)

Seguindo de novo o pensamento de Carl Rogers (1984b: 75-78), vejamos as características ou o que um facilitador não deve fazer.

Explorar excessivamente e abusivamente o trabalho com os grupos

Empurrar o grupo para fins pessoais, mediante a manipulação

Avaliar o grupo em termos de êxito ou de fracasso, pelo seu dramatismo

Partir do princípio de que há um único tipo de técnicas para lidar com os grupos

Fazer o grupo centrar-se nos próprios problemas do facilitador, não ficando desta forma disponível para os participantes

Impor exercícios ou actividades, do tipo: vamos todos…

Deixar de participar emocionalmente ou pessoalmente no grupo, mantendo-se distante, como perito – capaz de analisar o processo do grupo e as reacções dos seus membros através de um conhecimento superior.

BIBLIOGRAFIA

Rogers, Carl (1984a), Tornar-se Pessoal, Lisboa, Moraes Editora.

Rogers, Carl (1984b), Grupos de Encontro, Lisboa, Moraes Editora.
 

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